A pessoa que dirigiu o GitHub por anos saiu para construir o que o GitHub não consegue ser
Existe um tipo específico de credibilidade que só vem de ter operado um sistema no limite de sua escala: você sabe exatamente onde ele vai quebrar antes que quebre. Thomas Dohmke dirigiu o GitHub por anos e viu de perto o que acontece quando bilhões de operações de código tentam passar por uma infraestrutura que foi projetada para humanos trabalhando em ritmo humano.
Agentes de IA não trabalham em ritmo humano. Eles clonam repositórios, fazem pulls, executam builds e fazem push de alterações em velocidades que não têm precedente na história do desenvolvimento de software. E o GitHub, como qualquer plataforma centralizada, tem limites de requisição que existem para proteger a infraestrutura de ser sobrecarregada exatamente por esse tipo de tráfego.
A Entire, startup que Dohmke fundou após sair do GitHub, lançou na quarta-feira o preview de uma rede Git distribuída projetada especificamente para esse problema. Não é uma alternativa ao GitHub. É uma camada que resolve o problema que o GitHub não pode resolver sozinho: escalar para a era onde agentes de IA são cidadãos de primeira classe no ecossistema de desenvolvimento de software.
O problema que a Entire está resolvendo
Para entender por que uma rede Git distribuída é necessária agora, é preciso entender o que acontece quando agentes de IA entram em cena num repositório de código.
Um desenvolvedor humano clona um repositório algumas vezes por projeto, faz pulls periódicos para se manter atualizado e faz push quando tem algo pronto para compartilhar. O tráfego é esporádico, previsível e foi o que moldou os limites de requisição das plataformas de hospedagem de código durante décadas.
Um agente de IA pode clonar o mesmo repositório dezenas ou centenas de vezes por hora, cada instância do agente precisando do estado mais recente do código para executar sua tarefa. Quando você multiplica isso por equipes inteiras usando agentes em paralelo, o tráfego de leituras simultâneas para um único repositório pode facilmente atingir os limites que plataformas centralizadas impõem para proteger sua infraestrutura.
O próprio GitHub suspendeu novos cadastros no Copilot no início de 2026 quando o uso agêntico começou a pressionar sua viabilidade econômica. Não é um problema de má vontade: é um problema de arquitetura. Uma plataforma centralizada tem limitações estruturais que a tornam inadequada para o volume de tráfego que agentes de IA geram.
O que a rede distribuída da Entire faz concretamente
A solução da Entire é distribuída por design: em vez de todos os agentes fazendo pull do servidor central do GitHub, eles acessam espelhos regionais que contêm cópias completas do repositório, mantidas sincronizadas com o original. O tráfego intenso de leituras é distribuído pelos nós regionais, e o servidor central não vê as centenas de clones simultâneos que um único repositório pode gerar numa operação de agentes em paralelo.
O preview atual, disponível mediante lista de espera com regiões ativas nos Estados Unidos, Europa e Austrália, permite que desenvolvedores espelhem um repositório GitHub existente numa única etapa. A migração é transparente: os agentes continuam fazendo operações Git normais, mas apontam para o nó regional da Entire em vez do host central.
Os benchmarks que a empresa publicou são substanciais: 570 mil clones por hora a partir de um único repositório, 586 pushes por segundo e aproximadamente 470 operações combinadas de clone e push por segundo, com latência mediana de 50 a 60 milissegundos. Dohmke comprometeu publicamente abrir o código-fonte tanto do backend Git quanto do conjunto de benchmarks para que terceiros possam verificar os números, o que é um nível de transparência incomum para benchmarks de infraestrutura.
Os novos recursos que transformam sessões de agente em artefatos de código
O lançamento da rede distribuída veio acompanhado de recursos que revelam a visão mais ampla da Entire sobre o que o desenvolvimento de software vai se tornar na era agêntica.
O Entire Blame é uma extensão do conceito familiar de git blame, que rastreia qual humano fez qual alteração num arquivo de código. Na versão da Entire, o rastreamento vai além: uma alteração no código pode ser rastreada até a sessão específica do agente e o prompt exato que a gerou. Para times que precisam entender por que uma mudança foi feita, especialmente quando a mudança foi gerada por um agente, essa rastreabilidade é fundamental.
O Entire Review permite enviar um branch para múltiplos agentes realizarem uma leitura orientada por intenção de um diff, essencialmente uma revisão de código automatizada que vai além de verificar sintaxe e estilo para avaliar se as alterações correspondem à intenção que as gerou.
A declaração de Dohmke sobre logs de sessão é a que captura mais claramente a visão subjacente: “Os logs de sessão são agora o segundo artefato mais importante no desenvolvimento de software, e eles pertencem ao repositório junto com o código.” Se agentes vão gerar cada vez mais o código que vai para produção, o registro do raciocínio e das instruções que produziram esse código é tão importante quanto o código em si para entender, auditar e reproduzir os resultados.
A camada de memória semântica que veio antes
A Entire não começou com a rede distribuída. Quando saiu do modo stealth em fevereiro de 2026 com uma rodada semente de US$ 60 milhões a uma avaliação de US$ 300 milhões, o produto era uma camada de memória semântica que armazenava cada sessão de agente, prompt e chamada de ferramenta junto com o código no repositório.
A rede distribuída anunciada agora é construída sobre essa fundação. O contexto de sessões de agente e prompts que a Entire armazena junto ao código é o que alimenta tanto o Entire Blame quanto o Entire Review, tornando o rastreamento de alterações geradas por agentes possível de formas que sistemas Git convencionais não suportam.
A rodada foi liderada pela Felicis com participação da Madrona, da M12, braço de investimentos da Microsoft, e da Basis Set. A presença da M12 é notável: a Microsoft é proprietária do GitHub, e seu braço de investimentos apostando numa infraestrutura distribuída para agentes de IA que alivia a pressão sobre o GitHub é uma leitura interessante sobre como a empresa vê o futuro do próprio produto que possui.
A aposta que Dohmke está fazendo sobre o futuro do desenvolvimento de software
A declaração de Dohmke que captura mais claramente a aposta da Entire é simples: “Por design, o Git sempre foi pensado para ser distribuído.” Ele está essencialmente dizendo que a hospedagem centralizada foi uma conveniência que funcionou durante a era do desenvolvimento humano, mas que não é sustentável para a era agêntica.
Linus Torvalds criou o Git especificamente porque sistemas centralizados de controle de versão criavam gargalos. A filosofia do Git é que cada clone é um repositório completo, que operações locais são a norma e que a sincronização com servidores remotos é um caso especial. Durante décadas, o mercado ignorou essa filosofia e construiu plataformas centralizadas como GitHub, GitLab e Bitbucket porque a centralização resolvia problemas práticos de colaboração e descoberta.
Agentes de IA estão ressuscitando o problema original que motivou o design distribuído do Git. A Entire está apostando que a solução também é a mesma: distribuição real, não como arquitetura de backup, mas como arquitetura primária.
Dohmke não está sozinho nessa aposta. Ele também investiu pessoalmente na Tangled, um projeto separado de Git descentralizado, e a tendência de construir alternativas à hospedagem centralizada está ganhando força em todo o ecossistema de desenvolvedores conforme o uso agêntico cresce.
O que isso significa para equipes de desenvolvimento que adotaram agentes
Para times que estão integrando Claude Code, Codex, Cursor ou outros agentes de coding em seus fluxos de trabalho, a Entire endereça um problema que provavelmente já encontraram: limites de requisição no GitHub que interrompem operações de agentes em escala.
A proposta é de adoção gradual e de baixo risco: espelhar um repositório existente numa única etapa, apontar agentes para o nó regional da Entire, e manter o GitHub como sistema de registro. Se os benchmarks se confirmarem em uso real, o ganho em throughput é substancial sem exigir migração completa de infraestrutura.
A visão de longo prazo, de nós interconectados que permitam às equipes manter o código na própria região para fins de residência de dados sem deixar de fazer parte de um sistema global, aponta para uma arquitetura que pode ser especialmente relevante para empresas em regiões com requisitos regulatórios de soberania de dados, como o Brasil sob a LGPD ou a Europa sob o GDPR.
A era agêntica está chegando à infraestrutura de desenvolvimento de software de formas que as plataformas centralizadas não foram projetadas para suportar. A Entire é uma das primeiras apostas concretas de que a resposta é voltar ao que o Git sempre foi por design: distribuído.