Pela primeira vez, empresas americanas consumiram mais tokens de IAs chinesas que americanas. E isso muda tudo.

Em junho de 2026, 58% dos tokens consumidos por empresas americanas vieram de modelos chineses. A China lançou a WAICO com 29 países fundadores, os EUA estudam banir modelos orientais, e a Microsoft considera trocar parte do ChatGPT no Copilot pelo Kimi chinês. A guerra fria da IA está redefinindo quem vai valer o quê nessa indústria.
Pela primeira vez, empresas americanas consumiram mais tokens de IAs chinesas que americanas. E isso muda tudo.

58% dos tokens. Esse número muda a narrativa sobre quem está vencendo a guerra da IA.

A corrida entre China e Estados Unidos por liderança em inteligência artificial costuma ser contada como uma disputa de capacidade técnica: quem tem os modelos mais avançados, quem tem mais compute, quem treina mais rápido. Essa narrativa favorecia os EUA de forma clara até pelo menos o início de 2025, quando laboratórios americanos como OpenAI e Anthropic definiam o que era possível enquanto a China tentava alcançar.

O dado de junho de 2026 conta uma história diferente e mais perturbadora para a narrativa americana: pela primeira vez, empresas americanas consumiram mais tokens de modelos chineses do que de modelos americanos. 58% dos tokens gerados em junho vieram do DeepSeek, Kimi, Qwen e outros modelos orientais sendo processados nos fluxos de trabalho de empresas com sede nos Estados Unidos.

Isso não é uma questão de os modelos chineses terem vencido os americanos em capacidade técnica, embora a diferença tenha se reduzido dramaticamente. É uma questão de preço, eficiência e disponibilidade vencendo geopolítica nas decisões práticas de procurement de empresas que precisam controlar seus gastos com IA.

O que está acontecendo nos dois lados do duelo

A assimetria da guerra fria de IA é que os dois lados estão jogando jogos diferentes e com estratégias que raramente se encontram diretamente.

Do lado americano, a estratégia tem sido de contenção e de manutenção de vantagem técnica. Restrições à exportação de chips de IA avançados para a China. Bloqueio de modelos de fronteira para usuários estrangeiros, como aconteceu com o Fable 5 e o GPT-5.6. Acusações de roubo de dados, como o processo da Apple contra a OpenAI por uso de ex-funcionários, que ecoa suspeitas similares sobre empresas chinesas. E o estudo de banir por completo modelos de origem chinesa no mercado americano.

Do lado chinês, a estratégia tem sido de contornar e construir. A China definiu IA como prioridade estratégica de investimento estatal, com o governo canalizando recursos para laboratórios como DeepSeek, Moonshot AI e Qwen da Alibaba. O DeepSeek demonstrou que é possível competir em capacidade com uma fração dos recursos que laboratórios americanos usam, mudando o cálculo sobre o que é necessário para estar na fronteira técnica. E o lançamento da WAICO, a World Artificial Intelligence Cooperation Organization, com 29 países fundadores incluindo Brasil, África do Sul e Rússia, é uma jogada de multilateralismo que tenta criar um bloco alternativo ao domínio americano no desenvolvimento de padrões e governança de IA.

A WAICO e o que ela representa estrategicamente

A WAICO merece atenção específica porque representa uma mudança de estratégia da China: em vez de apenas tentar alcançar os EUA tecnicamente, está construindo uma estrutura multilateral para influenciar as regras do jogo globalmente.

Com 29 países fundadores que incluem economias significativas do Sul Global, a WAICO é um argumento de que o desenvolvimento de IA “não deve ser de um só país”, como a China tem repetido em fóruns internacionais. É o mesmo enquadramento que o primeiro-ministro canadense Mark Carney usou ao criticar o bloqueio do Fable 5, e que Jie Tang, fundador da Z.ai, usou ao lançar o GLM-5.2 horas depois do bloqueio. A diferença é que a WAICO institucionaliza esse argumento em estrutura formal com membros fundadores.

Para países como o Brasil, que está entre os 29 fundadores, a adesão à WAICO é um sinal sobre como estão pensando sobre sua posição nesse duelo: em vez de alinhar automaticamente com a visão americana de que IA de fronteira deve ser controlada por empresas ocidentais com supervisão governamental americana, estão buscando uma estrutura alternativa que preserve acesso irrestrito a tecnologia independentemente das tensões geopolíticas entre grandes potências.

O movimento da Microsoft que pode mudar tudo

O dado mais perturbador para os laboratórios americanos não é o consumo de tokens chineses por empresas genéricas. É a informação de que a Microsoft está considerando usar o Kimi da Moonshot AI para substituir parte do ChatGPT dentro do Copilot.

Para contextualizar: a Microsoft tem investimento bilionário na OpenAI e distribuiu o ChatGPT como motor de IA de seus produtos. A relação entre as duas empresas é uma das mais relevantes do setor. Se a Microsoft está avaliando trocar parte dessa integração por um modelo chinês por razões de custo e performance, o que isso diz sobre onde a lealdade corporativa termina e o pragmatismo econômico começa?

A resposta que o movimento da Microsoft sugere é que lealdade a um parceiro americano tem um preço, e quando a alternativa chinesa entrega performance suficiente a custo substancialmente menor, a calculadora vence o mapa. Empresas otimizam para performance e custo, não para geopolítica, como o texto captura com precisão.

A implicação que ameaça os valuations de US$ 2 trilhões

O raciocínio sobre valuations que o cenário de adoção de modelos chineses levanta é brutalmente simples. A OpenAI e a Anthropic valem combinadas algo próximo de US$ 2 trilhões de mercado com base numa premissa: que as capacidades de IA mais avançadas são escassas, que essas empresas as controlam, e que quem quer usar IA de fronteira precisa pagar o que elas cobram.

Se 58% dos tokens estão indo para modelos chineses de alta qualidade e custo substancialmente menor, e se isso continuar crescendo enquanto a diferença de capacidade entre modelos americanos e chineses continua se reduzindo, a premissa de escassez começa a se desfazer.

Por outro lado, as empresas cujos valuations não dependem de qual modelo vence esse duelo, os hyperscalers e fabricantes de chips, ganham mais relevância a cada desenvolvimento. A Amazon, Microsoft e Google têm receita de cloud que cresce independentemente de qual modelo específico está rodando em seus data centers. A Nvidia vende GPUs que treinam e rodam modelos de qualquer origem. Se o mercado migra para mais diversidade de modelos em vez de concentração em poucos players americanos, a demanda por infraestrutura cresce, não diminui.

O papel do Marco Regulatório como último freio

A única variável que pode alterar a trajetória de consumo crescente de modelos chineses por empresas americanas é regulatória. O governo americano estudando banir modelos de origem chinesa seria o equivalente ao que foi feito com o TikTok: uma intervenção baseada em segurança nacional que impede o mercado de seguir sua lógica econômica natural.

Se isso acontecer, cria um mercado artificial onde modelos americanos competem apenas entre si, protegidos da competição de preço e eficiência que os modelos chineses estão criando. Seria bom para OpenAI e Anthropic no curto prazo. Seria ruim para empresas americanas que precisam controlar custos de IA. E criaria pressão para que outros países, especialmente os fundadores da WAICO, construam seus próprios ecossistemas de IA menos dependentes de qualquer potência específica.

A questão que define os próximos anos

O duelo de IA entre China e Estados Unidos vai ser decidido por tecnologia, por regulação ou por adoção de mercado? Ou pelas três simultaneamente em formas que são difíceis de prever?

O que o número de 58% de junho sugere é que a adoção de mercado já está votando, e que o voto não está sendo dado pela geopolítica, mas pelo raciocínio econômico mais básico: o que entrega mais valor pelo preço. Isso pressiona governos a intervir com regulação se quiserem alterar o resultado, mas intervenção regulatória tem custos que se espalhram pelo sistema de formas que raramente são previstas adequadamente.

A guerra fria das IAs está mais quente do que a cobertura habitual do setor sugere. E o teatro das operações não é um laboratório de pesquisa ou uma audiência no Congresso. É o painel de billing de cada empresa que compara o custo por token do DeepSeek com o do Claude ou do GPT e toma uma decisão que, multiplicada por milhares de empresas, acabou de mudar o mapa do poder na indústria de tecnologia.

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