WhatsApp lança nomes de usuário 17 anos depois e revela a estratégia que faz a Meta copiar o Telegram sem pedir desculpa

O WhatsApp está finalmente permitindo que usuários escolham um nome de usuário com @ para se conectar sem precisar compartilhar o número de telefone. A funcionalidade chega 9 anos depois do Telegram, mas a demora é deliberada. Entenda por que a Meta usa o concorrente como laboratório de P&D e por que essa estratégia funciona.
WhatsApp lança nomes de usuário 17 anos depois

Dezessete anos depois do lançamento, o WhatsApp finalmente vai ter @usernames

Existe um momento em que uma funcionalidade deixa de ser diferencial de um concorrente e se torna expectativa básica de qualquer usuário de um app de mensagens. O Telegram tem nomes de usuário desde 2013. O Instagram, o Twitter, o TikTok e praticamente toda plataforma de comunicação digital relevante permitem que usuários se identifiquem sem precisar compartilhar informação pessoal.

O WhatsApp, que tem mais de dois bilhões de usuários ativos e é o app de mensagens mais usado do mundo, nunca ofereceu isso. Até agora.

A Meta confirmou que está abrindo o período de reserva de usernames para o WhatsApp, com implementação prevista para o final do ano. Qualquer usuário poderá escolher um nome com 3 a 35 caracteres. Grandes celebridades, personalidades e organizações já tiveram seus handles reservados preventivamente pela própria Meta.

Dezessete anos de espera para uma funcionalidade que usuários pedem há pelo menos uma década. A demora pode parecer incompetência. Na verdade, é estratégia.

O padrão que o histórico de funcionalidades do WhatsApp revela

Para entender por que a Meta demorou tanto para implementar usernames, é útil olhar para o padrão completo de como o WhatsApp adota funcionalidades ao longo do tempo.

Stickers chegaram ao Telegram em 2015 e ao WhatsApp em 2018. Canais chegaram ao Telegram em 2015 e ao WhatsApp em 2023. Multi-dispositivos existem no Telegram desde 2014 e chegaram ao WhatsApp em 2021. Edição de mensagens: Telegram em 2016, WhatsApp em 2023. Exclusão de mensagens: Telegram em 2015, WhatsApp em 2017. Visualização única de mídia: Telegram em 2017, WhatsApp em 2021. Reações: Telegram em 2021, WhatsApp em 2022. Enquetes: Telegram em 2018, WhatsApp em 2022. Busca por data: Telegram em 2018, WhatsApp em 2023.

A sequência é consistente demais para ser acidental. O Telegram lança, o WhatsApp observa, aprende e implementa quando considera que a funcionalidade está suficientemente madura e que a demanda está suficientemente comprovada. O intervalo médio é de alguns anos, às vezes mais.

Isso não é preguiça de produto. É um modelo de desenvolvimento onde o concorrente funciona como laboratório de P&D a céu aberto, pagando os custos de experimentação e erro para que a Meta possa adotar apenas o que comprovadamente funciona.

A lógica econômica por trás da estratégia de seguidor

Empresas que se posicionam como early adopters de funcionalidades pagam o custo de desenvolvimento, de bugs não antecipados, de usuários que abandonam quando algo não funciona como esperado e de reposicionamento quando a funcionalidade se prova um equívoco. A maioria das funcionalidades que Telegram lança em primeira mão não se torna padrão do setor: algumas somem, outras ficam em uso limitado, poucas se tornam expectativa universal.

A Meta tem duas bilhões de pessoas usando o WhatsApp. Lançar uma funcionalidade experimental para essa base tem custo de risco muito maior do que lançar para a base do Telegram, que é significativa mas menor e com perfil de usuário mais tolerante a experimentação. Errar em escala de dois bilhões de usuários tem consequências de reputação e de retenção que errar em escala de algumas centenas de milhões não tem.

A estratégia de observar, validar e implementar com anos de atraso é racionalmente defensável para qualquer plataforma que já tem dominância e que tem mais a perder com experimentos mal-sucedidos do que a ganhar com primazia tecnológica.

Por que usernames especificamente são mais do que uma funcionalidade de conveniência

A adição de nomes de usuário ao WhatsApp pode parecer um ajuste de usabilidade. Na prática, tem implicações estratégicas que vão além de não precisar passar o número de telefone.

O número de telefone como identificador único cria fricção em múltiplos cenários: ao se conectar com pessoas novas numa conferência, ao participar de grupos profissionais onde compartilhar número pessoal cria desconforto, ao se comunicar com empresas e profissionais com quem você quer manter certa distância de privacidade, e ao usar o WhatsApp para finalidades mais públicas como canais e transmissões onde o anonimato relativo é desejável.

Usernames eliminam essa fricção e abrem o WhatsApp para casos de uso que hoje vão para o Telegram exatamente porque o Telegram não exige número de telefone para conexão. Usuários que querem construir presença pública sem expor número pessoal, jornalistas e ativistas que precisam de canal de contato sem associação pessoal, profissionais que querem separar identidade pessoal de profissional: todos esses perfis têm razão para preferir plataformas com usernames.

A conexão com o negócio de US$ 2 bilhões por ano do WhatsApp Business

A Meta gera mais de US$ 2 bilhões por ano com o WhatsApp Business, que permite que empresas criem perfis comerciais e se comuniquem com clientes. Nesse contexto, usernames têm valor de negócio direto: uma empresa com @nomedamarca no WhatsApp tem uma identidade de contato que pode ser promovida em materiais de marketing, em redes sociais e em qualquer superfície de comunicação sem precisar que o cliente salve um número de telefone.

Para pequenos negócios que usam WhatsApp como canal principal de atendimento ao cliente, que é uma realidade muito comum no Brasil e em outros mercados emergentes, um username facilita a descoberta e o contato de formas que o número de telefone nunca conseguiu.

O investimento de cerca de US$ 900 milhões num novo CEO para o WhatsApp, mencionado no anúncio, é um sinal de que a Meta está tratando o mensageiro com seriedade renovada como plataforma de negócios, não apenas como app de mensagens pessoais.

O que a chegada de usernames revela sobre o momento do WhatsApp

O timing da adoção de usernames coincide com um período em que o WhatsApp está claramente expandindo sua ambição. Canais lançados em 2023 trouxeram funcionalidades de broadcast para uma plataforma que era quase exclusivamente de mensagens ponto a ponto. Atualizações recentes de status e de comunidades expandiram os casos de uso para além das conversas privadas. E agora usernames abrem a plataforma para formas de comunicação que exigem identidade pública sem exposição de informação pessoal.

A direção é clara: o WhatsApp está se movendo de app de mensagens pessoais para plataforma de comunicação mais ampla, que cobre desde conversas íntimas até canais públicos, desde contatos pessoais até conexões profissionais e comerciais.

Para usuários brasileiros em particular, onde o WhatsApp tem penetração quase universal e funciona como infraestrutura de comunicação tanto pessoal quanto profissional, a chegada de usernames é uma mudança de qualidade no uso cotidiano do aplicativo. A pergunta prática que muita gente vai se fazer em breve é simplesmente: qual nome de usuário eu quero reservar?

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