OpenAI e Anthropic Rumo ao IPO Sem Lucro: O Que os Documentos Financeiros Revelam Sobre as Duas Maiores Apostas da IA

Documentos financeiros confidenciais mostram que nem OpenAI nem Anthropic são lucrativas, com a OpenAI projetando US$ 74 bilhões em prejuízos apenas em 2028. Entenda as estratégias divergentes das duas empresas, o que isso significa para os IPOs planejados e por que os investidores estão apostando mesmo assim.
Documentos Financeiros

As Duas Empresas Mais Valiosas da IA Não Dão Lucro: O Que os Documentos Revelam

Existe uma tensão interessante no centro do maior ciclo de financiamento privado da história da tecnologia. As duas startups de inteligência artificial mais valiosas do mundo, a OpenAI avaliada em US$ 852 bilhões e a Anthropic em US$ 380 bilhões, estão se preparando para o que podem ser os maiores IPOs da história, enquanto documentos financeiros confidenciais revelados pelo Wall Street Journal mostram que nenhuma das duas está perto de ser lucrativa.

Isso não é necessariamente uma surpresa para quem acompanha o setor. Mas a escala dos números e a diferença entre as trajetórias das duas empresas contam uma história mais complexa e mais reveladora do que o simples fato de que startups de tecnologia queimam caixa antes de crescer.

Os Números que Definem a Divergência

A OpenAI não espera atingir o ponto de equilíbrio antes de 2030. As projeções internas da empresa mostram aproximadamente US$ 74 bilhões em prejuízos operacionais apenas em 2028, com queima de caixa cumulativa projetada em US$ 115 bilhões até 2029. Para colocar em perspectiva: a empresa gerou US$ 13,1 bilhões em receita em 2025, superando sua própria meta de US$ 10 bilhões, e ainda assim gastou US$ 8 bilhões durante o mesmo período.

A Anthropic apresenta um perfil financeiro radicalmente diferente. A empresa projeta atingir lucratividade até 2028 e estima queimar aproximadamente US$ 22 bilhões antes de atingir fluxo de caixa livre positivo. Isso representa cerca de um décimo quarto dos prejuízos esperados da OpenAI no mesmo horizonte temporal.

Essas duas empresas operam no mesmo mercado, com modelos tecnicamente comparáveis, mas com trajetórias financeiras que apontam para direções opostas. Entender por quê exige olhar para as escolhas que cada uma fez sobre como crescer.

Dois Modelos de Negócio, Uma Diferença de Escala

A divergência financeira entre as duas empresas não é acidental. Ela reflete escolhas deliberadas sobre onde competir e como alocar recursos.

Cerca de 80% da receita da Anthropic vem de clientes corporativos. A empresa evitou incursões custosas em produtos para o consumidor final como geração de imagens, vídeo e hardware. O Claude é primariamente uma API e uma ferramenta de uso profissional. Esse modelo tem margens mais previsíveis, menor custo de aquisição de usuários e demanda mais estável.

A OpenAI seguiu a direção oposta. Além do ChatGPT como produto de consumo em larga escala, a empresa lançou o Sora para geração de vídeo, um navegador web chamado Atlas, e está buscando hardware para consumidores e capacidades de e-commerce integradas ao ChatGPT. Cada nova iniciativa consome recursos computacionais adicionais em um momento em que a própria CFO Sarah Friar admitiu publicamente que a empresa está “fazendo algumas escolhas muito difíceis e abrindo mão de coisas que não está perseguindo porque não tem capacidade de computação suficiente.”

A Infraestrutura Como Aposta Existencial

A OpenAI está dizendo aos investidores que planeja gastar aproximadamente US$ 600 bilhões em infraestrutura de computação até 2030, um valor que o CEO Sam Altman classifica como essencial para atender o que ele chama de demanda insaciável por IA. Como Altman sintetizou em publicação no X: “Acreditamos que o risco para a OpenAI de não ter poder computacional suficiente é mais significativo e mais provável do que o risco de ter em excesso.”

Essa lógica tem uma coerência interna: quem controla mais infraestrutura serve mais demanda, serve mais demanda cria mais receita, mais receita justifica mais infraestrutura. O problema é que essa equação pressupõe que a demanda continuará crescendo na velocidade e na forma que as projeções assumem, e que a vantagem de ter mais compute se traduz em diferenciação competitiva sustentável quando os modelos de concorrentes estão se tornando progressivamente mais capazes.

O Paradoxo do IPO Sem Lucratividade

As duas empresas concluíram rodadas massivas de captação recentemente. A OpenAI fechou US$ 122 bilhões com avaliação de US$ 852 bilhões no final de março. A Anthropic levantou US$ 30 bilhões em fevereiro com avaliação de US$ 380 bilhões. Banqueiros que trabalham nos IPOs planejados esperam que a Anthropic possa levantar mais de US$ 60 bilhões quando abrir capital.

A questão que o mercado precisará responder é como avaliar empresas com esses perfis financeiros quando se tornarem públicas. Os frameworks tradicionais de análise de IPO, baseados em múltiplos de lucro ou projeção de payback, não se aplicam diretamente quando a lucratividade está a quatro ou seis anos de distância.

O que os investidores estarão comprando não é lucro presente, mas posição. A tese implícita em valuations dessa magnitude é que quem controlar a infraestrutura, os relacionamentos corporativos e a base de usuários da IA em 2026 estará em posição dominante quando o mercado madurar. É uma aposta na irreversibilidade da vantagem de posição, não na rentabilidade imediata.

O Que Diferencia Essa Situação das Bolhas Anteriores

É inevitável que a comparação com ciclos anteriores surja. Empresas sem lucro com valuations extraordinários abriram capital antes: Amazon, Uber, Airbnb, WeWork. Algumas justificaram as expectativas, outras não.

O que diferencia o caso das empresas de IA de fronteira é a natureza dos custos. A Amazon não lucrativa em 2001 estava investindo em armazéns e infraestrutura logística, ativos com longa vida útil e retorno previsível. A OpenAI não lucrativa em 2026 está gastando bilhões em computação que deprecia rapidamente, em chips que a próxima geração de hardware pode tornar obsoletos, e em treinamento de modelos cujo custo cai continuamente à medida que a tecnologia avança.

Isso cria uma dinâmica peculiar: quanto mais eficiente a tecnologia de treinamento se torna, mais barato fica para novos entrantes atingir capacidade comparável, o que pressiona as margens de quem construiu vantagem às custas de bilhões em compute. O caminho da Anthropic, com foco em receita corporativa e eficiência operacional, representa uma aposta de que essa dinâmica vai penalizar quem mais gastou. O caminho da OpenAI representa a aposta oposta: de que escala e ubiquidade criam barreiras que eficiência não consegue replicar.

Para os investidores que precisarão decidir entre os dois IPOs ao longo de 2026, a escolha é, em última instância, entre dois modelos de como empresas de plataforma constroem e mantêm posição dominante. A história da tecnologia oferece exemplos de sucesso em ambas as direções. O que a história não oferece é um precedente para essa escala de capital, essa velocidade de crescimento e essa proximidade temporal entre os dois IPOs.

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