DeepSeek V4 em Chips da Huawei: O Momento em que a China Prova que Pode Prescindir da Nvidia

O DeepSeek V4 será o primeiro modelo de IA de fronteira desenvolvido para rodar integralmente em chips da Huawei, não da Nvidia. Alibaba, ByteDance e Tencent já encomendaram centenas de milhares de unidades dos Ascend 950PR. Entenda o que essa mudança significa para a guerra tecnológica global e para o futuro dos semicondutores.
DeepSeek V4

O Modelo que a Nvidia Não Vai Otimizar: DeepSeek V4 e a Ruptura com o Hardware Ocidental

Desde que os modelos V3 e R1 do DeepSeek sacudiram os mercados globais no início de 2025, uma pergunta ficou em aberto: a China conseguiria replicar esse desempenho sem acesso aos chips da Nvidia que sustentam toda a infraestrutura de IA ocidental? O DeepSeek V4, com lançamento esperado para as próximas semanas, está prestes a oferecer uma resposta concreta a essa pergunta, e o que ela pode revelar tem implicações que vão muito além de um novo modelo de linguagem.

Segundo reportagem do The Information citada pela Reuters, o novo modelo DeepSeek V4 rodará nos chips mais recentes projetados pela Huawei Technologies. Em preparação para o lançamento, gigantes chinesas como Alibaba Group, ByteDance e Tencent Holdings fizeram encomendas em volume de centenas de milhares de unidades do chip, segundo cinco pessoas com conhecimento direto das compras. [WHBL]

A Decisão Que Quebra o Protocolo da Indústria

O que torna esse desenvolvimento particularmente significativo não é apenas a escolha de hardware. É o processo que levou a ela.

Reuters havia reportado anteriormente que o DeepSeek optou por não fornecer aos fabricantes de chips americanos acesso antecipado ao seu modelo mais recente para otimização de desempenho, quebrando uma prática padrão da indústria antes de uma grande atualização de modelo. O laboratório concedeu acesso antecipado a fornecedores domésticos, incluindo a Huawei Technologies. [TechWire Asia]

Essa decisão é deliberada e estratégica. Na prática de desenvolvimento de modelos de fronteira, fabricantes de chips como Nvidia investem recursos significativos para otimizar o desempenho de grandes modelos em seus processadores quando recebem acesso antecipado. O DeepSeek cortou esse ciclo de colaboração com empresas americanas e direcionou o mesmo espaço de acesso privilegiado para parceiros chineses.

O DeepSeek passou os últimos meses trabalhando diretamente com a Huawei e com outra projetista de chips chinesa, a Cambricon Technologies, para reescrever partes do código subjacente do modelo. Isso não é uma adaptação superficial. É uma reescrita de componentes fundamentais para funcionar numa arquitetura de hardware completamente diferente.

O Desafio Técnico de Substituir o Ecossistema CUDA

A Nvidia construiu ao longo de décadas um ecossistema de software chamado CUDA que se tornou o padrão de fato para desenvolvimento de IA. O DeepSeek V4 está reescritando componentes centrais do código para contornar o ecossistema CUDA em favor da arquitetura CANN da Huawei. O trabalho incluiu portar os frameworks próprios de atenção e de modelos Mixture-of-Experts do DeepSeek para rodar nativamente nos NPUs Ascend. [Lapaas Voice]

Enquanto chips individuais da Huawei, como o Ascend 910C, ainda ficam atrás do H100 da Nvidia em desempenho de pico bruto, o DeepSeek V4 está compensando por meio de eficiência arquitetural, provando que software inteligente pode superar hardware mais lento. Essa é exatamente a abordagem que definiu os modelos anteriores da empresa: substituir brute force computacional por design eficiente.

A Demanda que Antecede o Lançamento

A escala das encomendas dos chips da Huawei feitas por Alibaba, ByteDance e Tencent antes mesmo do lançamento do V4 é um sinal de mercado que não deve ser subestimado. Centenas de milhares de unidades do Ascend 950PR sendo encomendadas por três das maiores empresas de tecnologia da China indicam que o setor está apostando ativamente na viabilidade desse ecossistema alternativo, não apenas esperando para ver se funciona.

Analistas do IDC observam que fabricantes de chips chineses capturaram 41% do mercado local de aceleradores de IA em 2025. O DeepSeek V4 é visto como a validação de que a China agora pode treinar modelos próximos à fronteira sem silício fabricado pela TSMC para a Nvidia. [Lapaas Voice]

Esse dado contextualiza o que as encomendas em volume representam: não é apenas preparação para um modelo específico, mas posicionamento para um ciclo de infraestrutura que pode durar anos.

A Lógica Geopolítica: Sansões Como Catalisador

A história por trás do V4 em chips da Huawei é, fundamentalmente, uma história sobre como restrições externas podem acelerar inovação interna quando aplicadas a atores com recursos e determinação suficientes.

As restrições de exportação dos Estados Unidos sobre chips avançados para a China foram desenhadas para manter a China dependente de hardware ocidental para desenvolver IA de ponta. A suposição implícita era de que sem acesso a GPUs da Nvidia, o progresso chinês em modelos de fronteira seria substancialmente mais lento.

O movimento contrasta com afirmações anteriores de que o sucesso do DeepSeek dependia de acesso a chips da Nvidia. Com o V4, a empresa está sinalizando sua capacidade de treinar, otimizar e implantar modelos avançados dentro do próprio ecossistema da China. As implicações se estendem além de um modelo. Se chips domésticos podem suportar cargas de trabalho de IA de alto desempenho, as restrições de Washington começam a parecer menos um gargalo e mais uma função que acelera a inovação local. [Tech Startups]

Esse é um dos cenários mais complicados para qualquer estratégia de controle tecnológico via exportação: quando as restrições são suficientemente severas para forçar o desenvolvimento de alternativas, mas não suficientemente severas para impedir que essas alternativas sejam desenvolvidas, o resultado pode ser a criação de um ecossistema concorrente que não existiria sem a pressão externa.

Dois Ecossistemas, Dois Futuros

O resultado de tudo isso aponta para a formação de dois ecossistemas de IA distintos. Um centrado na tecnologia americana, com o hardware e o software da Nvidia em seu núcleo. O outro se formando ao redor de empresas chinesas, com chips da Huawei e pilhas de software locais. [TechWire Asia]

Essa fragmentação tem consequências práticas para desenvolvedores, empresas e governos ao redor do mundo que precisarão, eventualmente, escolher em qual ecossistema construir. Modelos treinados e otimizados para Ascend não rodam da mesma forma em H100, e vice-versa. Frameworks de software escritos para CANN não são intercambiáveis com CUDA. À medida que esses ecossistemas se distanciam tecnicamente, a portabilidade entre eles diminui.

Para a indústria global de semicondutores, o DeepSeek V4 pode representar o momento em que a hipótese de que chips da Huawei não conseguem sustentar modelos de fronteira começa a ser testada em condições reais de produção. Se o modelo entregar o desempenho prometido, a pressão sobre as premissas que sustentam a estratégia de restrições americanas será considerável, e o debate sobre a eficácia de longo prazo de controles de exportação como ferramenta geopolítica se tornará ainda mais urgente.

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