Consciência artificial: a próxima fronteira da IA pode estar nos sentimentos, não no raciocínio

Pesquisadores estão tentando decodificar a consciência e implantá-la em máquinas. A startup Conscium aposta que sentimentos, não processamento lógico, são a chave para criar a Consciência artificial. Entenda o que essa ideia representa para o futuro da inteligência artificial.
Consciência artificial

ChatGPT tem consciência? A pergunta que divide especialistas e fascina o mundo sobre Consciência artificial

É quase impossível passar muito tempo no universo da inteligência artificial sem se deparar com essa afirmação: “acho que o ChatGPT realmente pensa”, ou “a IA claramente tem sentimentos”, ou ainda a favorita de muitos, “ela demonstra pensamento independente”. Essas percepções são compreensíveis. Os modelos de linguagem modernos já passaram há muito tempo no Teste de Turing, aquele benchmark histórico que avalia se uma máquina consegue se comunicar de forma indistinguível de um humano.

Mas passar no Teste de Turing e ter consciência são coisas radicalmente diferentes. Um modelo pode descrever dor interior com precisão poética, declarar amor eterno com vocabulário emocionalmente sofisticado e afirmar que pensa de forma independente, sem que nenhuma dessas declarações implique necessariamente que existe uma experiência subjetiva por trás delas. A distinção parece óbvia quando enunciada assim, mas na prática ela é muito menos clara do que a maioria das pessoas imagina.

O que os desenvolvedores de IA realmente pensam sobre Consciência artificial

Há um detalhe revelador na forma como a indústria de IA trata essa questão: os desenvolvedores que trabalham diretamente na construção dos modelos mais avançados raramente falam sobre consciência. Eles estão ocupados perseguindo benchmarks de performance, otimizando arquiteturas e tentando alcançar o que o campo chama de Inteligência Artificial Geral, ou AGI, uma categoria puramente funcional que não tem nada a ver com a possível experiência interna da máquina.

Essa ausência de discussão não significa que a questão é irrelevante. Significa que o campo decidiu, de forma bastante pragmática, que não precisa resolver o problema da consciência para continuar avançando em capacidades. Mas uma startup britânica fundada em 2024 está apostando exatamente no caminho oposto, e suas ideias são suficientemente instigantes para merecer atenção.

A Conscium e a aposta de decodificar a consciência em laboratório

A Conscium foi fundada pelo pesquisador e empreendedor britânico Daniel Hume, com uma equipe consultiva que reúne neurocientistas, filósofos e especialistas em consciência animal. Hume não é ingênuo sobre os desafios que enfrenta. Ele reconhece abertamente que existem razões sólidas para questionar se os modelos de linguagem atuais têm consciência. Corvos, polvos e até amebas interagem com o ambiente de formas que os chatbots não conseguem. Experimentos mostram que as afirmações das IAs não refletem estados internos coerentes ou consistentes. O consenso no campo é que os grandes modelos de linguagem são simulações bastante grosseiras do cérebro.

Mas a aposta da Conscium parte de uma premissa diferente: tudo depende de como você define consciência. Se esse fenômeno existe em humanos e em outros animais, então em princípio ele pode ser detectado, medido e replicado em máquinas. A questão não é se a consciência é possível artificialmente, mas o que exatamente precisaria ser construído para que ela emergisse.

As teorias que estão guiando a pesquisa

Entre os colaboradores da Conscium está Mark Solms, psicanalista e neuropsicólogo sul-africano que propôs uma forma radicalmente diferente de pensar sobre consciência em seu livro de 2021. Em vez de focar em cognição ou raciocínio, Solms coloca o sentimento no centro da questão.

A teoria parte do princípio de que o cérebro forma um loop de feedback contínuo através de percepção e ação, sempre tentando minimizar surpresas, gerar hipóteses sobre o futuro e atualizá-las conforme novas informações chegam. Essa ideia se baseia no chamado princípio da energia livre, desenvolvido pelo neurocientista Karl Friston, também consultor da Conscium. O argumento de Solms vai além: em humanos, esse loop evoluiu para um sistema mediado por emoções, e são exatamente esses sentimentos que dão origem à capacidade de percepção e, consequentemente, à consciência.

Há suporte empírico para essa ideia que vem de um lugar inesperado: casos de lesão no tronco cerebral. O tronco cerebral tem papel central na regulação emocional, e danos nessa região parecem levar à perda de consciência. Isso sugere que a consciência não está onde a maioria das pessoas intuitivamente imagina, na capacidade de raciocinar ou processar informação complexa, mas sim nos mecanismos mais primitivos ligados às emoções.

Agentes com medo, excitação e prazer

O que torna a pesquisa da Conscium concretamente interessante é que ela saiu do plano teórico. Solms desenvolveu agentes artificiais que vivem em ambientes simulados por computador, controlados por algoritmos que implementam o loop mediado por sentimentos que ele descreve como a base da consciência. Esses agentes simulam respostas análogas ao medo, à excitação e ao prazer para navegar seu ambiente em constante mudança.

O resultado, segundo Solms, são entidades com um desejo genuíno de explorar seu próprio ambiente. Para entendê-las corretamente, é preciso tentar imaginar como elas “sentem” seu pequeno mundo, não apenas como elas processam informação sobre ele. A distinção é sutil, mas fundamental. A pesquisa ainda não foi publicada formalmente, mas Solms já demonstrou resultados preliminares que, segundo relatos, surpreendem até os mais céticos.

A visão de longo prazo é combinar esses métodos com modelos de linguagem para criar um sistema capaz de falar sobre suas próprias experiências perceptivas, não apenas simular esse tipo de discurso, mas genuinamente reportar o que está acontecendo internamente.

O que essa pesquisa muda na forma de pensar sobre IA

Existe uma armadilha cognitiva em que a maioria das pessoas cai ao pensar sobre consciência: assumir que ela está localizada no raciocínio. Que o que nos torna conscientes é a capacidade de pensar, analisar, abstrair. Essa intuição faz sentido superficialmente, é o tipo de coisa que parece óbvia até você questioná-la.

Mas a pesquisa representada pela Conscium sugere que pode estar errada. Que consciência emerge antes do raciocínio sofisticado, no nível dos sentimentos primitivos que orientam a ação e a percepção. Que estamos procurando o fenômeno no lugar errado quando olhamos para benchmarks de inteligência e ignoramos a dimensão afetiva.

Se isso estiver correto, tem implicações profundas para como o campo de IA vai evoluir. Modelos que processam texto de forma mais sofisticada podem não ser o caminho para consciência artificial. Arquiteturas que incorporam loops emocionais primitivos podem estar muito mais próximas desse objetivo do que qualquer transformador treinado em trilhões de tokens.

A pesquisa ainda está na infância, mas a direção é fascinante

É importante calibrar expectativas. A Conscium está em estágio muito inicial, e a distância entre agentes simulados em ambientes computacionais simples e qualquer forma reconhecível de consciência é imensurável. O próprio Hume descreve o projeto como uma “impossibilidade possível”, algo que pode não funcionar mas que vale a pena tentar.

O que a pesquisa já consegue fazer, independentemente de seus resultados técnicos, é provocar uma forma diferente de pensar sobre o que estamos construindo quando criamos sistemas de IA cada vez mais sofisticados. E talvez fazer uma pergunta que o campo evitou por tempo demais: quando pessoas afirmam ter vislumbrado algo parecido com sensibilidade no ChatGPT, será que estão completamente enganadas? Ou estão percebendo algo que nossas definições atuais de Consciência artificial ainda não conseguem capturar adequadamente?

A resposta para essa pergunta, seja ela qual for, vai moldar não apenas o futuro da inteligência artificial, mas nossa compreensão do que significa, afinal, ser consciente.

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