Ferramenta chinesa de IA para programação, GLM, ganha espaço entre desenvolvedores americanos

Ferramenta chinesa de IA para programação, GLM, ganha espaço entre desenvolvedores americanos

Durante anos, o mercado de ferramentas de Inteligência Artificial para programação foi amplamente dominado por empresas americanas. Soluções como GitHub Copilot, Replit, Claude Code e modelos da OpenAI consolidaram a percepção de que os Estados Unidos lideravam com folga a corrida da IA aplicada ao desenvolvimento de software. No entanto, esse cenário começa a mostrar sinais claros de mudança.

Uma ferramenta chinesa de IA para programação, o GLM 4.7, desenvolvida pela Zhipu AI, vem ganhando espaço de forma discreta — porém significativa — entre desenvolvedores americanos. O crescimento da demanda foi tão intenso que a empresa precisou anunciar restrições de acesso, algo raro para um produto de origem chinesa em um mercado historicamente cético em relação a essas soluções.

Segundo reportagem da CNBC, a base de usuários do GLM 4.7 está hoje concentrada principalmente nos Estados Unidos e na China, um feito notável e simbólico para o setor.

O que é o GLM 4.7 e por que ele chama atenção?

O GLM 4.7 é um modelo de IA generativa focado em programação, engenharia de software e agentes de codificação. Ele foi projetado para executar tarefas complexas, como criação de aplicações, análise de código, geração de scripts e automação de fluxos técnicos.

O grande diferencial do modelo não está apenas em sua capacidade técnica, mas em três fatores-chave:

  • Velocidade de execução
  • Eficiência de custo
  • Disponibilidade como código aberto

Esses elementos tornam o GLM 4.7 extremamente atraente para desenvolvedores independentes, startups e empresas que precisam escalar soluções sem elevar drasticamente os custos de computação.

Comparação direta com modelos americanos

A CNBC realizou testes práticos comparando o agente de codificação da Zhipu AI com alternativas americanas populares, como Replit e Claude Code. Em um dos testes, os modelos receberam a tarefa de criar um rastreador das maiores empresas públicas da China.

O resultado chamou atenção:
o GLM 4.7 entregou um aplicativo funcional mais rapidamente do que seus concorrentes americanos. Embora o produto final fosse menos refinado em termos de interface e acabamento, a velocidade e a objetividade impressionaram.

Esse tipo de desempenho reforça uma tendência crescente no mercado: para muitos desenvolvedores, velocidade e custo estão se tornando mais importantes do que refinamento estético.

Demanda inesperada nos Estados Unidos

Um dos aspectos mais surpreendentes desse movimento é a origem da demanda. De acordo com Tuhin Srivastava, CEO da Baseten — empresa de infraestrutura de IA apoiada pela Nvidia — o interesse pelo GLM 4.7 não vem apenas da China.

“A parte mais surpreendente? A demanda não vem apenas da China… vem de desenvolvedores americanos”, afirmou Srivastava durante uma transmissão ao vivo da CNBC em 26 de janeiro.

A Baseten observa de perto a implantação de modelos de IA no mundo real e identificou um padrão claro: desenvolvedores estão otimizando fortemente para inferência e custo, especialmente à medida que os preços de computação continuam subindo globalmente.

Preço agressivo e eficiência de custo

Outro ponto decisivo para a adoção do GLM 4.7 é o preço. A ferramenta oferece acesso à API a partir de US$ 3 por mês, um valor significativamente inferior aos praticados por grandes provedores americanos.

Em um cenário onde os custos de infraestrutura em nuvem e inferência de modelos aumentam rapidamente, essa diferença de preço se torna estratégica. Para startups, equipes enxutas e desenvolvedores freelancers, a economia mensal pode ser determinante na escolha da tecnologia.

Essa eficiência reforça a percepção de que os modelos chineses estão sendo fortemente otimizados para custo-benefício, algo que começa a pressionar empresas que cobram valores premium.

O debate sobre a “diferença de seis meses”

O avanço do GLM 4.7 ocorre em paralelo a um debate intenso sobre a real distância entre a IA desenvolvida nos Estados Unidos e na China. Em Davos, o CEO do DeepMind, Demis Hassabis, afirmou que as empresas chinesas ainda estariam cerca de seis meses atrás das líderes ocidentais.

Segundo Hassabis, a reação ao modelo R1 da DeepSeek no ano anterior teria sido exagerada, destacando que empresas chinesas são muito eficientes em “alcançar a fronteira”, mas ainda precisam provar que conseguem inovar além dela.

No entanto, os números do GLM 4.7 colocam essa afirmação em perspectiva.

Resultados em benchmarks e código aberto

Nos benchmarks técnicos, o GLM 4.7 alcançou 73,8% no SWE-bench Verified, um índice bastante competitivo, aproximando-se de modelos proprietários líderes do mercado.

Além disso, o fato de o modelo ser open source representa uma vantagem estratégica importante para adoção empresarial. Código aberto permite:

  • Auditoria de segurança
  • Customização interna
  • Redução de dependência de fornecedores
  • Maior controle sobre dados e infraestrutura

Para muitas empresas, esses fatores pesam tanto quanto — ou mais do que — pequenas diferenças de performance.

Implicações para o mercado global de IA

A Zhipu AI, formalmente conhecida como Knowledge Atlas Technology, arrecadou US$ 558 milhões em seu IPO em Hong Kong neste mês, tornando-se a primeira grande empresa de capital aberto focada em modelos de base de IA generativa.

Isso ocorreu apesar de a empresa estar incluída na Lista de Entidades do Departamento de Comércio dos EUA, por supostos vínculos com o exército chinês — um fator que adiciona complexidade geopolítica ao debate.

Ainda assim, a rápida adoção do GLM 4.7 levanta um alerta claro para o mercado:
os “fossos competitivos” que empresas americanas acreditavam possuir podem estar sendo erosionados por alternativas eficientes, baratas e abertas.

Conclusão

O crescimento do GLM 4.7 entre desenvolvedores americanos marca um ponto de inflexão importante no mercado de IA para programação. Mais do que uma disputa tecnológica, trata-se de uma mudança de prioridades: custo, velocidade e eficiência prática estão ganhando peso frente ao refinamento e ao branding.

Se essa tendência continuar, o domínio absoluto das empresas americanas no setor de ferramentas de desenvolvimento com IA poderá ser seriamente desafiado. Para desenvolvedores e empresas, o cenário se torna mais competitivo — e, ao mesmo tempo, mais vantajoso, com mais opções e menos dependência de soluções caras.

O avanço das ferramentas chinesas de IA não é apenas uma curiosidade do mercado: é um sinal claro de que a corrida global pela inteligência artificial está longe de ter um vencedor definitivo.

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