CEO do DeepMind diz que AGI está a poucos anos de distância e pede órgão regulador liderado pelos EUA antes que seja tarde

Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind e vencedor do Nobel de Química 2024, publicou um framework para regulação de IA de fronteira defendendo criação de órgão supervisor fundado pela indústria e respondendo ao governo americano. Para ele, AGI pode ter impacto 10 vezes maior que a Revolução Industrial em velocidade 10 vezes mais rápida.
Google DeepMind

O homem que mais perto está de construir AGI está pedindo que o mundo se prepare antes que ela chegue

Existe uma credibilidade específica que vem de ter dedicado décadas ao problema que você está descrevendo. Demis Hassabis cofundou a DeepMind em 2010 com o objetivo explícito de resolver a inteligência artificial, passou trinta anos de carreira trabalhando nessa direção, ganhou o Prêmio Nobel de Química em 2024 pelo AlphaFold, e dirige hoje o laboratório de IA do Google. Quando ele diz que AGI está a poucos anos de distância e que chegou a hora de regulação urgente, não está fazendo uma afirmação especulativa sobre o futuro distante. Está descrevendo o horizonte imediato do trabalho que ele mesmo está executando.

O texto que Hassabis publicou no X, no LinkedIn e em sua newsletter, intitulado “A Framework for Frontier AI and the Dawning of a New Age”, é uma das declarações mais significativas que qualquer líder técnico de IA já fez sobre a natureza do que está sendo construído e sobre o que precisa ser feito antes que chegue. E vem em momento em que os eventos recentes, do bloqueio governamental do Fable 5 à cúpula de líderes de IA no G7, tornaram o debate sobre governança urgente de formas que eram teóricas há apenas alguns meses.

O que Hassabis está dizendo sobre a natureza da AGI

A primeira coisa que distingue o argumento de Hassabis de outros pronunciamentos sobre AGI é a recusa de fazer comparações inadequadas. Ele diz explicitamente que AGI não pode ser comparada a avanços tecnológicos comuns, nem mesmo àqueles tão impactantes quanto a internet ou os dispositivos móveis. Para ele, a analogia correta é com a descoberta da eletricidade ou do fogo, tecnologias que não apenas aceleraram o progresso dentro dos paradigmas existentes mas mudaram a natureza do que era possível para a civilização humana.

A frase que ele usa para capturar essa escala é notavelmente direta: “se você parar para pensar, essencialmente encontramos uma maneira de fazer a areia pensar. É algo milagroso.” A areia que ele menciona é o silício, e o milagre é que o processo de fabricar chips de semicondutores e treiná-los em dados humanos resultou em sistemas que exibem algo funcionalmente semelhante ao raciocínio.

A projeção de impacto que ele apresenta é de 10 vezes maior que a Revolução Industrial em velocidade 10 vezes mais rápida. A Revolução Industrial transformou completamente a economia global, a estrutura social e as possibilidades de vida humana ao longo de um século. A afirmação implícita é que AGI pode fazer o equivalente em uma década.

Os riscos que Hassabis não está minimizando

Parte do que torna o texto de Hassabis credível é que ele não está apenas descrevendo o potencial positivo. Ele menciona especificamente riscos emergentes em cibersegurança, em ameaças biológicas e nucleares à medida que as capacidades avançam, e pede “uma ação urgente” incluindo “salvaguardas robustas para manter o controle sobre sistemas cada vez mais autônomos e capazes de autoaperfeiçoamento recursivo.

A referência a autoaperfeiçoamento recursivo é tecnicamente específica: descreve sistemas que podem contribuir para o desenvolvimento de versões melhores de si mesmos, acelerando o ritmo de progresso de formas que tornam a supervisão humana progressivamente mais difícil. É o mesmo cenário que a Anthropic havia descrito ao defender uma pausa coordenada no desenvolvimento de IA e que gerou a proposta de pausar quando sistemas atingissem capacidade de se autoaprimorar sem supervisão humana.

A proposta concreta: um órgão regulador fundado pela indústria

O que Hassabis está pedindo não é regulação genérica por governos que podem não ter capacidade técnica para avaliá-la adequadamente. Ele está pedindo algo específico: um órgão regulador fundado pela indústria, com participação de especialistas técnicos de nível mundial, e que responda ao governo dos EUA.

Esse modelo híbrido é deliberado. Regulação puramente governamental pode ser tecnicamente inadequada e politicamente enviesada por interesses nacionais de curto prazo. Autorregulação puramente pela indústria carece de independência e de poder de enforcement. A proposta de Hassabis tenta combinar o rigor técnico que só quem está na fronteira do desenvolvimento pode oferecer com a legitimidade e o poder de aplicação que só governo pode ter.

O mecanismo concreto que ele propõe ecoa o framework que emergiu da experiência com o Fable 5: laboratórios entregariam seus novos modelos de fronteira para avaliação 30 dias antes do lançamento público. Só após aprovação os modelos seriam lançados. As avaliações seriam rigorosas, cobrindo especificamente capacidades em cibersegurança, ameaças biológicas e outras áreas de alto risco, além de testes de IA agêntica que possa contornar salvaguardas.

Por que os EUA especificamente devem liderar

Hassabis argumenta que a liderança dos EUA no órgão regulador faz sentido pela posição econômica e técnica do país. É onde estão os laboratórios mais avançados do mundo, onde está a maior concentração de talento de IA, onde estão as empresas com mais capacidade de compute. Um órgão regulador que não inclua os EUA como ator central não tem eficácia sobre os sistemas que mais importam regular.

A proposta foi apresentada a pessoas do governo dos EUA, líderes de laboratórios de IA de fronteira e autoridades da União Europeia, segundo o Axios. Hassabis vem construindo apoio à ideia há meses, antes de torná-la pública nesse texto.

O timing não é acidental. O G7 acabou de ter a primeira cúpula onde líderes mundiais sentaram com CEOs de IA para discutir padrões globais. O governo americano demonstrou disposição de intervir em lançamentos de modelos tanto com o Fable 5 quanto com o framework de 30 dias que a OpenAI seguiu para o GPT-5.6. O momento político para criar estruturas de governança está mais maduro do que estava um ano atrás.

O que “estamos aos pés da singularidade” significa na prática

A frase mais contundente do texto de Hassabis é que, ao olhar para trás nas próximas décadas, perceberemos que estávamos aos pés da singularidade, “nada menos do que o alvorecer de uma nova era para a humanidade”. Singularidade, no vocabulário de IA, refere-se ao ponto após o qual o progresso tecnológico se torna tão rápido e profundo que é impossível prever o que vem depois.

Hassabis não está usando o termo de forma casual. Está dizendo que vivemos agora num período de “preciosa janela” antes da chegada da AGI, e que o que fizermos coletivamente agora vai determinar como a próxima fase da civilização se desenrolará. É uma afirmação de responsabilidade histórica, não apenas de oportunidade tecnológica.

A comparação com outras transições fundamentais da história humana é instrutiva: a descoberta do fogo e da eletricidade não tiveram governança estruturada. A humanidade simplesmente as adotou e lidou com as consequências ao longo do tempo. A proposta de Hassabis é que AGI é poderosa demais para esse modelo de adoção irrestrita seguida de adaptação reativa.

Por que esse texto importa além da figura de Hassabis

O texto de Hassabis não é apenas a opinião de um CEO influente. É um documento que vai ser parte do registro histórico de como a indústria de IA respondeu ao momento que ela mesma estava criando.

A publicação um dia depois que economistas e vencedores do Nobel assinaram carta aberta pedindo que líderes globais considerem os impactos econômicos da IA sugere coordenação de narrativa, ou pelo menos convergência de preocupações que diferentes comunidades estão chegando de formas independentes. Quando economistas, cientistas e engenheiros de IA chegam às mesmas conclusões sobre urgência de governança por caminhos diferentes, o sinal é mais forte do que qualquer um deles individualmente.

Para quem está acompanhando o desenvolvimento da IA, a declaração de Hassabis é ao mesmo tempo uma atualização de status sobre onde estamos, AGI a poucos anos de distância na avaliação de quem melhor pode saber, e um chamado à ação sobre o que ainda pode ser feito na janela que existe antes que cheguemos lá.

O futuro, como ele mesmo escreveu, ainda não está escrito. E a pergunta que seu texto coloca para governos, para a indústria e para a sociedade é se vamos usar a janela disponível para moldá-lo ou vamos chegar à AGI da mesma forma que chegamos ao fogo: sem ter escolhido como essa tecnologia transformadora seria governada, apenas constatando depois o que ela se tornou.

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