Son, da SoftBank, diz que IA vai precisar de US$ 5 trilhões por ano até 2040 e aposta na fusão nuclear como única saída para a crise energética que vem aí

Masayoshi Son previu que IA vai exigir US$ 5 trilhões anuais em infraestrutura até 2040 e 3 terawatts de capacidade de geração de energia, mais do que toda a capacidade elétrica global atual. Com bilhões comprometidos em data centers nos EUA e na Europa, Son aposta na fusão nuclear como solução de longo prazo para alimentar a era da IA.
Son diz que IA vai precisar de US$ 5 trilhões por ano até 2040

O homem que mais apostou em IA está dizendo que o mundo vai precisar construir o equivalente a toda sua capacidade elétrica novamente, só para alimentar data centers

Existe uma forma específica de credibilidade que vem de ter apostado bilhões de dólares num cenário antes de articulá-lo publicamente. Masayoshi Son vai comprometer mais de US$ 60 bilhões na OpenAI antes do fim de 2026, anunciou planos de uma usina termelétrica de 9,2 gigawatts no Ohio, e prometeu até €75 bilhões para data centers na Europa. Quando Son fala sobre o futuro energético da IA, não está especulando a partir do lado de fora. Está descrevendo o problema que suas próprias decisões de investimento vão ter que resolver.

O que ele disse nos dias 13 e 14 de julho é vertiginoso na sua escala: IA vai exigir investimentos em infraestrutura de US$ 5 trilhões por ano até 2040, e uma capacidade de geração de energia de 3 terawatts, equivalente a 1,8 vezes a capacidade total de geração de energia elétrica do mundo inteiro hoje. E a solução de longo prazo que ele enxerga para suprir essa demanda não é gás natural, não é renovável convencional, não é fissão nuclear. É fusão.

A demanda que nenhuma fonte de energia convencional consegue suprir

Para contextualizar o número de 3 terawatts que Son projeta para 2040, é útil ter referências de escala. Toda a capacidade instalada de geração de energia elétrica do mundo, incluindo carvão, gás, nuclear, hidrelétrica, solar e eólica somadas, é de aproximadamente 9 terawatts hoje. Son está dizendo que os data centers de IA, por si só, vão precisar de um terço disso a mais do que o mundo inteiro consome hoje.

Mesmo que essa projeção esteja exagerada por um fator de dois, o que precisaria acontecer para alimentar metade dessa demanda seria uma expansão de infraestrutura energética sem precedente na história industrial. E as fontes convencionais têm limitações estruturais que tornam essa expansão extraordinariamente difícil.

Gás natural é o caminho que Son reconhece como realista no curto e médio prazo, daí o compromisso com a usina de 9,2 gigawatts no Ohio. Mas gás emite carbono, e data centers de IA construídos sobre gás natural num horizonte de 2040 criam conflito direto com compromissos climáticos que governos e o próprio setor de tecnologia assumiram publicamente.

Solar e eólica têm o problema da intermitência: produzem quando o sol brilha e o vento sopra, não quando os data centers precisam de energia constante. Armazenamento em baterias em escala suficiente ainda não existe. Hidrelétrica não é expansível de forma significativa porque depende de geografia específica.

Fissão nuclear convencional funciona como fonte constante e de baixo carbono, mas construir novas usinas nucleares leva décadas e enfrenta oposição política e regulatória intensa em muitos países.

Por que Son está apostando na fusão

A fusão nuclear alimenta o sol e as estrelas: dois núcleos de hidrogênio fundidos liberam energia sem gerar resíduos radioativos de longa duração e sem o risco de fusão do núcleo que é a preocupação central com reatores de fissão. O combustível, isótopos de hidrogênio, é abundante no oceano. A premissa é de energia limpa praticamente ilimitada.

O problema é que nenhum reator de fusão produziu energia líquida de forma sustentada em escala comercial. O NIF, laboratório americano de fissão inercial, atingiu ignição de fusão em 2022, um marco científico histórico, mas a escala e a frequência necessárias para gerar eletricidade comercial estão a distância substancial. A maioria das projeções situa usinas de fusão viáveis em pelo menos uma década, e “pelo menos uma década” é um intervalo que a comunidade de fusão usa há décadas.

O que mudou é o volume de capital privado que está fluindo para o setor. A General Fusion está assinando acordos de implantação comercial na Europa. A Commonwealth Fusion Systems, spinoff do MIT, captou bilhões e está construindo o SPARC, que promete ser o primeiro tokamak a alcançar energia de fusão líquida. A TAE Technologies, a Helion e outras startups estão em corridas paralelas com abordagens diferentes.

Son não está apostando na fusão porque está próxima. Está apostando porque é a única resposta de escala suficiente para um problema de escala que outras fontes de energia não conseguem resolver. E porque se a IA realmente vai consumir 3 terawatts em 2040, o incentivo econômico para resolver fusão nunca foi tão grande.

Os investimentos que dão substância às afirmações

O que distingue Son de outros visionários que fazem proclamações sobre o futuro da IA é a escala dos compromissos concretos que acompanham suas declarações.

Em março, a SoftBank anunciou a usina termelétrica a gás de 9,2 gigawatts no Ohio, projetada especificamente para data centers de IA, a um custo de US$ 33,3 bilhões. É uma aposta de curto prazo em tecnologia conhecida que pode ser construída nos próximos anos, enquanto a aposta de longo prazo em fusão ainda não tem usinas disponíveis para comprar.

Em junho, o compromisso de €75 bilhões para 3,1 gigawatts de capacidade em data centers na França é o maior compromisso individual de infraestrutura de IA na Europa. O presidente Macron destacou a base de energia nuclear do país como um dos atrativos, o que é revelador: a França, com mais de 70% de sua eletricidade vindo de fissão nuclear, tem a infraestrutura de baixo carbono que data centers de IA precisam num horizonte intermediário antes que fusão esteja disponível.

O investimento acumulado na OpenAI ultrapassando US$ 60 bilhões é a aposta na camada de software, nos modelos e nas plataformas. A infraestrutura energética é a aposta na camada física que torna esses modelos possíveis de rodar em escala. Son está apostando em toda a pilha.

A rejeição da narrativa de bolha

Quando um investidor que colocou dezenas de bilhões de dólares em tecnologia afirma que não há bolha, a reação natural é ceticismo sobre conflito de interesses. Son está motivado para acreditar que seu portfólio vai gerar retorno. Mas o argumento que ele oferece vai além de confiança de investidor.

A receita gerada pela tecnologia de IA podendo chegar a 20% do PIB mundial até 2040 não é uma projeção baseada em crescimento linear das empresas de IA. É uma afirmação sobre a penetração da tecnologia na economia como um todo: IA se tornando infraestrutura de produtividade para praticamente todos os setores, da mesma forma que eletricidade, telecomunicações e internet são infraestrutura hoje.

Se essa penetração acontecer, o investimento em infraestrutura de IA não é uma bolha especulativa. É construção de infraestrutura para um setor que vai ser central à economia global. A questão é de timing: a infraestrutura está sendo construída antes da demanda que a justifica estar plenamente desenvolvida, o que cria riscos de curto prazo mesmo que o cenário de longo prazo seja correto.

O que a visão de Son significa para o restante do mercado

As declarações de Son não são apenas a visão de um investidor sobre o futuro. São um diagnóstico do problema central que toda a indústria de IA vai ter que resolver: a energia necessária para operar os modelos mais avançados em escala é uma restrição física que nenhuma inovação em software ou em eficiência de modelos elimina completamente.

O Goldman Sachs havia alertado sobre saturação do mercado de crédito para financiamento de infraestrutura de IA. Musk havia classificado a alta nos preços de chips como o maior aumento de preços que já viu em qualquer coisa. A Apple subiu preços de Macs e iPads por causa da pressão de demanda das hiperescaladoras por componentes.

Son está adicionando uma camada adicional a esse diagnóstico: além dos chips e do crédito, a energia é o gargalo que vai definir quem pode escalar e a que custo. Empresas que garantirem acesso a energia limpa e constante em escala vão ter vantagem estrutural sobre as que dependem de mercados spot de energia ou de fontes intermitentes.

A aposta na fusão nuclear é uma aposta de 15 anos num problema que o mercado de energia convencional não vai conseguir resolver adequadamente. Se a fusão comercial se tornar realidade nos próximos 10 a 15 anos, com a urgência que a demanda de IA está criando como incentivo, Son vai ter antecipado a solução do problema de energia da IA com a mesma antecedência com que antecipou outros momentos transformadores da tecnologia.

Se a fusão continuar sendo uma promessa de décadas que nunca chega, o mundo vai ter que resolver a demanda de 3 terawatts com outras fontes. Mas a urgência que Son está criando em torno do problema, e o capital que está comprometendo para construir a infraestrutura de curto prazo enquanto a de longo prazo não está disponível, é em si um sinal sobre a seriedade do gargalo que está se formando.

Cadastre-se na nossa newsletter

Inscreva-se na newsletter para ver novas fotos, dicas e postagens no blog.​

Subscribe to My Newsletter

Subscribe to my weekly newsletter. I don’t send any spam email ever!