Anthropic Passa a Exigir Documento de Identidade para Usar o Claude, e a Reação Foi Imediata

A Anthropic começou a solicitar documentos com foto e selfie ao vivo de alguns usuários do Claude via serviço Persona. A medida gerou críticas intensas sobre privacidade, segurança de dados e o histórico problemático do parceiro escolhido. Entenda o que está acontecendo.
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A Anthropic Pediu Seu Passaporte. Os Usuários Não Gostaram.

Usar uma ferramenta de inteligência artificial costuma ser uma experiência de fricção mínima: você cria uma conta, escolhe um plano e começa a trabalhar. A Anthropic decidiu mudar esse contrato silencioso para uma parte de seus usuários, e a reação foi proporcional à surpresa. A empresa começou a exigir que determinados usuários enviem um documento de identidade com foto emitido pelo governo — passaporte ou carteira de motorista — além de uma selfie ao vivo capturada pela câmera do dispositivo, antes de acessar certos recursos do Claude.

A exigência é processada por meio do serviço de verificação terceirizado Persona, e foi detalhada em uma página de suporte publicada em 12 de abril. Segundo a Anthropic, a verificação pode ser solicitada ao acessar funcionalidades específicas, durante verificações de rotina de integridade da plataforma ou para atender requisitos de segurança e conformidade. Alguns usuários relataram ter sido abordados com essa solicitação justamente no momento em que tentavam assinar um dos planos pagos da plataforma — o que tornou a experiência ainda mais desconcertante.

Por Que o Persona Está no Centro das Críticas

Se a exigência de identificação por si só já seria controversa, a escolha do Persona como parceiro de verificação transformou a polêmica em algo mais sério. Em fevereiro de 2026, um pesquisador de segurança descobriu que o código de frontend da empresa havia sido deixado exposto em um servidor autorizado pelo governo dos EUA. O que foi encontrado ali não era trivial: o sistema da Persona era capaz de realizar 269 verificações distintas, incluindo reconhecimento facial cruzado com listas de vigilância e triagem de pessoas politicamente expostas.

Mais do que isso, os arquivos expostos revelaram funcionalidades para envio de relatórios diretamente ao FinCEN, a unidade de inteligência financeira do Tesouro americano. Quando essa descoberta veio a público, o Discord encerrou sua parceria com a Persona. A empresa respondeu ao episódio afirmando que o ambiente exposto era isolado dos sistemas de produção e que nenhum dado pessoal havia sido comprometido. O CEO Rick Song declarou que a empresa retém dados “apenas pelo tempo necessário em nome do cliente” — uma formulação que, para muitos especialistas em privacidade, levanta mais perguntas do que responde.

É nesse contexto que usuários da Anthropic estão sendo solicitados a enviar documentos sensíveis. Não se trata apenas de uma questão de inconveniência. Trata-se de confiar informações de identidade a uma empresa cujas capacidades de processamento de dados foram expostas de forma involuntária e que, até recentemente, mantinha parceria com plataformas que optaram por sair após conhecer melhor o que estava por baixo do capô.

O Que a Anthropic Diz Sobre o Uso dos Dados

A Anthropic tentou endereçar as preocupações com algumas garantias específicas. A empresa afirmou que as imagens dos documentos ficam armazenadas nos sistemas do Persona, não nos seus próprios servidores. Garantiu também que os dados de verificação não são compartilhados com terceiros para fins de marketing, publicidade ou qualquer finalidade além de verificação e conformidade. E foi explícita ao dizer que as informações de identidade não serão usadas para treinar seus modelos.

Essas garantias são razoáveis no papel, mas esbarram em um problema de credibilidade de contexto. Quando você escolhe um parceiro com um histórico público recente de exposição inadvertida de capacidades sensíveis, as garantias que você oferece sobre o uso dos dados precisam ser excepcionalmente robustas para compensar a desconfiança gerada por esse histórico. Para uma parcela significativa dos usuários, as declarações da Anthropic simplesmente não foram suficientes para fechar essa lacuna.

A Lógica da Medida — e Por Que os Usuários Não a Aceitam

Do ponto de vista da Anthropic, a lógica por trás da verificação de identidade não é difícil de entender. Modelos como o Claude são ferramentas poderosas, e garantir que quem os acessa seja uma pessoa real e verificável é uma forma de aumentar a responsabilidade sobre o uso. Isso também pode ser relevante para cumprir requisitos de conformidade em determinados mercados ou atender demandas de clientes corporativos que precisam de garantias sobre a origem dos usuários em suas integrações.

O problema é que essa lógica não se sustenta bem diante da crítica mais direta que circulou nas redes: nem o ChatGPT nem o Gemini exigem documento de identidade emitido pelo governo para assinatura de planos. Se os dois maiores concorrentes diretos da Anthropic conseguem operar com verificação por cartão de crédito e moderação por IA, a pergunta que surge naturalmente é por que o Claude precisaria de um nível de verificação que vai muito além do praticado pela indústria.

Um comentarista no Hacker News articulou a crítica de forma direta: o documento com foto não adiciona segurança extra proporcional ao risco que cria, já que concentra dados sensíveis em um ponto de falha potencial. A verificação de cartão de crédito e a própria moderação algorítmica da Anthropic já oferecem proteções contra uso indevido — sem exigir que o usuário entregue sua identidade física a um terceiro.

Um Padrão de Atritos Que Está Acumulando Custo de Reputação

O requisito de identificação não chegou de forma isolada. Ele se soma a uma sequência de mudanças de política que têm gerado fricção crescente com a base de usuários da Anthropic nos últimos meses. A empresa restringiu o uso de ferramentas de terceiros nas assinaturas do Claude. Atualizou sua política de privacidade para permitir o treinamento com dados de usuários por padrão nos planos para consumidores — uma mudança que passou sem muito aviso. E enfrentou uma situação embaraçosa ao vazar acidentalmente arquivos de código-fonte do Claude Code.

Cada um desses episódios, isoladamente, poderia ser absorvido como parte do crescimento de um produto em rápida evolução. Juntos, eles formam um padrão que usuários mais atentos estão identificando: a Anthropic está expandindo o escopo do que solicita de seus usuários enquanto a base de confiança necessária para justificar essas solicitações ainda está sendo construída.

Isso é particularmente delicado porque a Anthropic tem posicionado o Claude como a alternativa mais segura e mais responsável entre os grandes modelos de linguagem. A empresa faz questão de comunicar seus compromissos com segurança de IA, alinhamento e uso responsável. Quando as práticas de produto começam a gerar desconforto entre exatamente os usuários que mais valorizavam essa reputação, o custo não é apenas de churn — é de erosão da narrativa central que diferencia a empresa no mercado.

O Que Usuários Devem Saber Antes de Decidir

Para quem está diante da solicitação de verificação e precisa decidir o que fazer, alguns pontos práticos merecem atenção. A exigência, por enquanto, se aplica a situações específicas — acesso a determinados recursos, assinatura de planos pagos em alguns contextos ou verificações de integridade da plataforma. Não é uma exigência universal para todos os usuários em todas as situações.

Se você decidir prosseguir com a verificação, as garantias da Anthropic sobre não uso dos dados para treinamento e não compartilhamento para fins comerciais estão documentadas publicamente. Se decidir não prosseguir, a empresa não indica claramente quais funcionalidades ficam restritas, o que é em si uma fonte de frustração legítima — usuários merecem saber exatamente o que estão perdendo ao recusar, não apenas ser colocados diante de um portal de verificação sem alternativa visível.

O episódio, no fundo, levanta uma questão que vai além da Anthropic: à medida que ferramentas de IA se tornam mais integradas à vida profissional e pessoal de milhões de pessoas, qual é o nível razoável de identificação que essas plataformas podem exigir? E quem decide o que conta como razoável — as empresas, os reguladores ou os usuários com o poder de mudar para um concorrente?

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