Criador do OpenClaw compara adoção de IA no Brasil, EUA e China: o que o mundo pode aprender com a diferença de culturas

Peter Steinberger, criador do OpenClaw, alertou que a relutância americana em adotar IA agêntica pode deixar o país para trás na corrida tecnológica. Entenda o contraste entre as culturas de adoção nos EUA e na China, e o que esse debate revela sobre o futuro do trabalho com IA.
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Peter Steinberger não é um nome que a maioria das pessoas reconhece imediatamente, mas o software que ele criou está no centro de um dos debates mais importantes sobre tecnologia e trabalho em 2026. O engenheiro austríaco que desenvolveu o OpenClaw, framework de agentes de IA de código aberto que acumulou mais de 100 mil estrelas no GitHub, usou uma entrevista à Bloomberg para fazer uma afirmação que sintetiza uma tensão real no mercado global de tecnologia.

“Nos EUA, sinto que em algumas empresas, se você usar o OpenClaw, pode ser demitido”, disse Steinberger. “Na China, por outro lado, muitas empresas são exatamente o oposto: se você não usar o OpenClaw, pode ser demitido.”

Essa inversão não é retórica. Ela descreve duas culturas de adoção tecnológica que estão produzindo resultados e riscos completamente diferentes, e o debate sobre qual abordagem é mais acertada tem implicações que vão muito além do OpenClaw em si.

O que está acontecendo na China com o OpenClaw

Desde o lançamento do framework em novembro, a China viveu algo próximo de um frenesi de adoção. Estudantes, profissionais e aposentados formaram filas em eventos para que engenheiros instalassem o software em seus laptops, incluindo um evento na sede da empresa em Shenzhen que reuniu um público improvável pela diversidade de perfis. A ferramenta ultrapassou barreiras geracionais e de formação técnica que normalmente limitam a adoção de frameworks de desenvolvimento.

O detalhe mais revelador que Steinberger compartilhou foi o de uma empresa chinesa que lhe mostrou um formulário com o nome de cada funcionário ao lado de uma coluna com a pergunta “O que foi automatizado hoje”. A pergunta não é casual. Ela representa uma mudança de postura organizacional: automação deixou de ser uma iniciativa opcional de times de tecnologia e virou uma expectativa de desempenho individual.

Esse nível de institucionalização da adoção de IA é raro mesmo em empresas ocidentais consideradas avançadas em tecnologia. O que a China está fazendo, ao menos nas empresas que Steinberger observou de perto, é tratar a capacidade de usar IA agêntica como uma competência profissional básica, não como um diferencial.

O contraste americano e o peso das restrições

Do outro lado do espectro, alguns empregadores americanos restringiram ou proibiram o uso de ferramentas de agentes de IA, principalmente por preocupações com segurança de dados e conformidade regulatória. Essas preocupações não são infundadas. O próprio Steinberger reconheceu que o OpenClaw traz riscos potenciais de segurança reais, algo que a crise do ClawHub, marketplace de skills do framework, tornou ainda mais evidente nas últimas semanas.

Mas o argumento central de Steinberger não é que os riscos devem ser ignorados. É que proibição não é uma estratégia de aprendizado. “Esta tecnologia ainda é muito nova, e a única maneira de aprender é usá-la nós mesmos e testá-la”, disse ele. Organizações que bloqueiam o acesso à ferramenta protegem seus sistemas no curto prazo, mas acumulam um déficit de conhecimento prático que vai se tornando cada vez mais difícil de recuperar.

Jensen Huang, Andrej Karpathy e o consenso que está se formando

Steinberger não está sozinho nessa avaliação. Jensen Huang, CEO da Nvidia, chamou o OpenClaw de “talvez o lançamento de software mais significativo de todos os tempos” e declarou em seu keynote na GTC 2026 que “toda empresa do mundo hoje precisa ter uma estratégia OpenClaw”. São afirmações fortes, mas que refletem onde o mercado de infraestrutura de IA está colocando suas fichas.

Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI, ofereceu um ângulo diferente e igualmente revelador sobre o estágio atual da IA agêntica. Em uma conversa no podcast No Priors, ele descreveu o sistema de automação residencial que construiu para si mesmo, batizado de “Garra do Elfo Dobby” em referência ao elfo doméstico de Harry Potter. O sistema controla luzes, climatização, persianas, piscina, spa e sistema de segurança, e se comunica com ele via WhatsApp, enviando mensagens e imagens com alertas contextuais como a chegada de um veículo de entrega.

O detalhe que mais chama atenção não é a sofisticação técnica da configuração. É o que Karpathy mencionou quase de passagem: ele não digitou uma linha de código desde dezembro, com agentes de IA fazendo esse trabalho por ele. Para alguém com seu nível de expertise técnica, essa afirmação é uma demonstração prática de até onde a delegação de tarefas para agentes já chegou na vida real de quem está na fronteira do desenvolvimento de IA.

O que a automação pessoal de Karpathy revela

A “Garra do Elfo Dobby” não é apenas uma curiosidade tecnológica. Ela é um caso de uso que mostra como agentes de IA pessoais estão começando a funcionar como uma camada de orquestração entre o usuário e múltiplos sistemas, substituindo interfaces fragmentadas por uma única interface conversacional. Karpathy mencionou que a configuração eliminou seis aplicativos separados do seu telefone, consolidando o controle em um único ponto de interação.

Esse padrão, um agente que conecta sistemas diferentes e age de forma proativa sem precisar ser acionado manualmente para cada tarefa, é exatamente o que o OpenClaw promete no nível corporativo. A versão doméstica de Karpathy é uma miniatura funcional do que Steinberger está descrevendo quando fala sobre agentes pessoais e corporativos que se comunicam de forma integrada.

O futuro do OpenClaw e o que Steinberger está construindo na OpenAI

Após ser contratado pela OpenAI em fevereiro, depois que Sam Altman o descreveu publicamente como “um gênio”, Steinberger passou a fazer parte da equipe do Codex, o agente de programação que a empresa está posicionando como produto central de sua estratégia empresarial. A combinação de sua experiência com frameworks agênticos e o foco da OpenAI em produtividade para desenvolvedores cria um alinhamento óbvio.

O OpenClaw, por sua vez, vai continuar sua trajetória de forma independente. O framework fará a transição para uma fundação autônoma com parceiros que incluem Nvidia, Microsoft, ByteDance e Tencent, uma composição que combina infraestrutura de hardware, plataforma de nuvem e players chineses com interesse direto na expansão do ecossistema. A estrutura de fundação independente é uma forma de garantir que o projeto não seja capturado por nenhum player específico, mantendo a credibilidade open source que o tornou relevante.

O que esse debate significa para empresas e profissionais

A frase de Steinberger sobre demissão por usar ou não usar OpenClaw é provocativa, mas o argumento subjacente é sério. Organizações que tratam a adoção de IA agêntica como um risco a ser contido estão fazendo uma escolha com consequências de longo prazo. Elas podem estar certas em identificar riscos reais, mas a forma de mitigar esses riscos faz toda a diferença: proibir o uso é diferente de criar ambientes controlados para experimentação segura.

O aspecto mais crucial no futuro, nas palavras do próprio Steinberger, é ter mais pessoas dedicando tempo para entender o que a IA pode fazer, para que a sociedade como um todo esteja preparada. Essa preparação não acontece por decreto ou por leitura de relatórios. Ela acontece pelo uso, pelo erro, pelo ajuste e pela acumulação de experiência prática que nenhum benchmark consegue replicar.

A China entendeu isso de uma forma que ainda divide opiniões, mas que produz resultados. O resto do mundo está decidindo, empresa por empresa, se vai experimentar ou esperar. E essa decisão, tomada hoje em cada organização, vai determinar quem chegará mais preparado à próxima fase dessa transformação.

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